terça-feira, 30 de novembro de 2010

O cântico dos salmos

Levanto-me
respiro a brisa do mar
deixo o sol entrar nos meus poros
deixo a minha pele chorar de alegria
a fita do meu cabelo desprende-se de novo e o vento mostra-o
Introduzo-me
o meu sorriso projecta-se até ao céu
e o seu reflexo ilumina o meu ser
Não preciso de casaco porque é Verão
Não preciso de casaco porque TU me aqueces
Vou indo
nua
navegando nas ondas fortes da praia
com a certeza de que posso voltar a terra quando quiser
enlaço-me
E logo jorra o eu que me abraça
e logo brota o cântico dos salmos

Elevo-me
E depois saio
flutuando
voando
E tu estás à minha espera
e olhas para mim
terno
calmo
amando-me
nua e linda...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Abraço...


A fita do meu cabelo desprendeu-se
O meu interior soltou-se
Deixei-me visitar pelo eu
Abro os braços na ânsia de que venha novamente...

sábado, 27 de novembro de 2010

Está frio e eu não tenho casaco...

Vivenciei uma experiência de dor...
Estava num parque de estacionamento movimentado. É quase Dezembro e a azáfama natalícia já se faz sentir. Estacionei o carro num ponto longínquo para fugir a qualquer hipótese de ser vista ou reconhecia. Se há momento que gosto de fazer sózinha e com calma são as compras. Saí do carro sem grande vontade... está frio e não tenho casaco.
Os meus passos foram perros e desnorteados mas em breves minutos entrei no supermercado. Não estava muita gente mas logo à entrada uma pessoa me abordou - peditório do Banco Alimentar. Dei meia volta e... uma pessoa conhecida...
Fiz as compras meio desnorteada. Apesar da lista que sempre levo, apesar de nem estar muita gente, parece que de repente tinha perdido o sentido das coisas... O leite onde estará? Quero água? Sei lá em que corredor se encontra...
Quando finalmente consegui completar a lista de compras e ter o meu carrinho quase cheio pensei que tinha a missão cumprida, inclusive, dois ou três pacotes seriam para o Banco Alimentar.
Já na caixa, senti frio. Pois, está frio e não tenho casaco.
A senhora que ali se encontrava teve o profissionalismo de me arrumar as compras. Era bastante simpática aquela senhora e eu hoje não fui simpática, sei que não fui... talvez apenas educada porque a boa educação não ocupa lugar e é uma regra básica de convivência em sociedade.
À saída do supermercado lá deixei o meu contributo para o Banco Alimentar e não contive o meu pensamento nas milhares de familias que poderão passar "fome"... ou mesmo fome! E é arrepiante...
O caminho até ao carro paraceu-me mais longo.
O carrinho estava pesado, havia alguma agitação de carros e pessoas, a tal azáfama natalícia...
Coloquei as compras na traseira do carro com alguma dificuldade. As minhas mãos estavam geladas, doiam-me as costas e tinha algum sono e fome à mistura. Depois de todas no seu devido lugar voltei para guardar o carrinho das compras. E mais uma vez regressei ao carro.
Sentei-me, liguei-o e curiosamente tocou "End of may" de Michael Buble.
Nesse instante senti o frémito do meu corpo... Está frio e não tenho casaco.
Deixei-me ficar, tremendo, e depois, e sem conter, escorreram em caudal denso lágrimas grossas e pesadas sob a minha face...
Vivênciei uma experiência de dor...
Senti-me esvaziar. Senti-me sózinha...
As teclas do piano dessintonizaram e gritaram no escuro da noite uma melodia pesada, densa e muito muito ausente... Enregelei e assim fiquei...
até que minhas lágrimas secassem, até que...
Pois, para onde poderia ir...?
Está frio e eu não tenho casaco...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Atraco-me...


Atraco-me
sinto os meus pés ondulantes
navego sobre águas e areias
sem norte, sem rumo
Atraco-me
mas apenas de quando em vez
quando sei que estás ou que vais chegar
assim mesmo, lado a lado
ondulamos mutuamente
vejo-te chegar
vejo-te partir
vejo-te
olho-te
respiro-te
toco-te de quando em vez 
Atraco-me
assim mesmo, lado a lado
na ânsia que fiques e não partas
na esperança que voltes quando partes
Vais, vens,...
Escuta
consegues ouvir?
Encosta ao teu ouvido este búzio do mar
assim mesmo, lado a lado,
consegues ouvir?
Atraco-me...

A dança da lua

Movimento-me suavemente. Passo despercebida. Vou conquistando o meu espaço.

Dou pequenos passos.
Assemelho-me a uma romã rosada mas sou como o véu que te cobre.
O meu cabelo preso em rabo de cavalo quer libertar-se e esvoaçar perdido nesta noite.
Descoberto o meu pescoço, arrepia-se, no tilintar das tuas mãos pequeninas, doces e macias.
Calço sapatos de salto alto.
Inspiro a fragância da noite na sua tonalidade escura. O som dos grilos dilata-me os ouvidos.
Saio de repente cá para fora num misto de fé e de ansiedade!
A minha blusa de centim aparece incólume
Agito-me, baloiço-me
Sou brindada pelo sorriso das estrelas....

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O meu solitário

Tenho um solitário em minha casa que é perfeito. Não é fácil imaginá-lo mas posso dizer que há de vários tamanhos, cores, feitios mas o meu é perfeito...
Curiosamente esteve muito tempo sózinho, se calhar influenciado pelo seu nome mas depois fez-se acompanhar todas as semanas de uma beleza natural.
Essa beleza murchou e ele voltou a estar sózinho.
Como a companhia faz falta, arranjou uma não tão natural mas que pelo menos permanecesse com ele todos os dias...
Apenas há uns meses conseguiu encontrar o seu verdadeiro perfect fit
É uma beleza natural que apesar de não ser extremamente graciosa tem particularidades: não murcha facilmente, ganha raíz, o seu formato é em espiral e foi oferecida por alguém muito especial.
O seu nome não é importante mas hoje quero falar-te dela: Ana Rita.
Olhos doces, meigos, cor de mel, algo tristes mas brilhantes quando sorri. Cabelos castanhos claros. Silhueta franzina e baixa. Um jeito envergonhado e tímido. A voz serena, concentrada, amiga. Uma menina sonhadora... que sofreu um desgosto.
Conheci-a menina e eu fui a escolhida para participar na sua passagem a mulher. Só hoje me dou conta... Quando tive a minha primeira mestruação estava, felizmente, em casa e o meu irmão é que me alertou para o sangue que tinha nas calças do pijama! Com a Ana Rita não foi assim e eu estava lá... eu que não sou a mãe, nem a irmã, nem sequer propriamente a amiga.
Lembro-me do rosto de aflição, do receio em contar-me e de uma certa vergonha... Hoje olhando para trás se calhar podia e devia ter apoiado melhor este momento. Ana Rita perdoa-me...
Afinal estava estampado em ti, és especial e eu tinha uma missão para contigo... mas não desisti e de novo precisas de mim e eu, aqui estou!
Tu não és o meu solitário, também não és a beleza natural que o acompanha, tu és sol, és luz, tu podes brilhar. Podes ser um anjo e eu vou ajudar-te a erguer de novo as tuas asas.
Ana Rita, apesar de tudo, ainda é cedo para te cingires ao meu solitário...
Solta-te, sai da gaiola, voa, porque tu podes, tu tens asas!

Abraço querida

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Quando um dia...

Quiseste...

Agarraste o meu braço para parar
Quiseste suspender
Mas o meu coração cavalgou a tua montanha
Agarraste a minha mão para parar
Quiseste interromper
Mas o meu coração galopou o teu ser
Quiseste...
mas não conseguiste
O meu corpo devorou-te em relâmpago de prazer!
Sonhaste?
... é bom sonhar...

Quando um dia conseguir libertar-me
Quando um dia me expandir
e me exprimir assim...
alcançarei o êxtase
do meu "eu" desconhecido...

Amor, pois que é palavra essencial
Amor - pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.
Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?
O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?
Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.
Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.
E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da prórpia vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.
E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.
Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
(Carlos Drummond de Andrade)