terça-feira, 15 de março de 2011

A natureza no seu esplendor

Se um dia a visão me faltar
Eu perder a audição
Ou não conseguir articular palavra
Nas minhas mãos nada sentir
Nem sentir o perfume de uma flor
Ainda assim
O meu coração
Irá ver
Irá ouvir
Irá dizer
Irá sentir
Irá cheirar
A natureza no seu esplendor...
Aquela que em todo o momento
Tu me ensinas a olhar
Tu me despertas a ouvir
Tu me impeles a dizer
Tu me levas a sentir e a cheirar...
Porque tu és
A natureza a brotar de dentro de mim!

segunda-feira, 14 de março de 2011

A liberdade...

Gosto de passear
à beira-mar
ou à beira-rio
sentido o fresco no rosto
o vento nos meus cabelos
sózinha
ou de mãos dadas contigo
sem freios
nem receios
sem correntes
nem amarras
sem "ses"
nem "porquês"
sem hora marcada
sem pressões
com chuva
ou com sol
sentindo os salpicos da água
ou os raios quentes que me aquecem
em sonhos
ou no real...
Gosto de passear
e o que importa é que
leve no meu coração
a liberdade
dos meus passos
a liberdade
do meu destino
a liberdade
do meu pensamento
e sempre... sempre...
a liberdade
daqueles que amo no coração...
daqueles que amo como tu...

segunda-feira, 7 de março de 2011

O meu ópio...

É noite e chove
É noite e o céu está negro
É noite
Chove, o céu está negro, inundado de lágrimas
Mas
De quando em vez um manto branco impõe-se ao seu negrume
É noite
Experimento pela segunda vez a sensação deste branco que avassala o preto por escassos segundos
O cheiro a terra molhada é tão intenso como ópio
O bater do meu coração é tão forte como quando tuas mãos percorrem o meu corpo
É noite
Estou sozinha no monte...
O branco apareceu de novo
Como um véu de noiva que cobre um rosto
É noite
Queres que me foque no branco
Na felicidade
No teu olhar vivo e brilhante
No teu sorriso contagiante
Mas é noite
E chove
E está negro...
E o branco só permanece por escassos segundos...
Perdoa-me...
Hoje não consigo...

domingo, 6 de março de 2011

Observo...

Observo pela minha janela
a luz clara e suave do teu olhar
não que me espreites
não que me olhes
apenas porque ela toca minha alma
e seus fios translúcidos
ecoam em mim
quais teclas vibrantes de um piano
enérgicamente controladas por teus dedos
E sim
ao longe a voz suave de um anjo
sente-se vivo e audível
qual estorninho ao encontro do seu bando...
E lá
se ampara
se aconchega
encontra seu lar...
Ainda que para trás
deixe ficar
as résteas da sua fêmea gémea...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Tatuagem...

Infiltro-me na noite...
escura...
densa...
fria...
aterreradora...
sentir a tua falta é isto...
não é só não saber de ti...
não é só não te ouvir...
não é só não te ver...
não é é só não te sentir...
é infiltrar-me no mais escuro de mim...
é cortarem-me as asas
é sugarem-me a vida
é apagarem os meus genes
é formatarem o meu coração
é tatuarem-me a dor
... a dor da tua ausência...
...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Respiro...

Olha... que engraçado... há quanto tempo estás aqui?
Há quanto tempo me olhas assim?
Desde quando me sorris dessa forma?
Repara... que interessante... que forma tão bonita de acenar... que maneira tão doce de me dizeres "estou aqui"...
Sabes, gostava muito que conseguisses entrar dentro de mim... sim! Mesmo cá dentro!
Consegues imaginar o que seria navegares dentro do meu ser?
Muitas vezes venho aqui...
sento-me nesta areia fina e nem sempre quente como agora
descalço os meus sapatos e tiro as minhas meias antes de tudo
atiro-me para trás
deito a cabeça no chão
olho o céu
vejo as aves
vejo as nuvens e respiro...
Respiro...
daquela maneira que me ensinaste
com o peito todo
com o ser todo
com a alma toda
daquela maneira em que parece que queremos sugar todo o Mundo que conseguirmos...
queres não queres?
pois queres...
quem não quer?
...
Depois de me deliciar assim
levanto-me...
primeiro deixo-me estar sentada...
contemplo o mar
revejo-me em cada onda que bate forte
que se enrola, que se enleia
que tenta chegar o mais alto possivel e que depois vem vertiginosamente em queda e que bate...
que bate forte! Que se estilhaça! Que se espalha!
E que por fim se deixa misturar nessa areia... 
A seguir levanto-me...
ponho-me de pé...
começo a andar,
a seguir apresso-me e depois... 
Depois corro!
Depois grito!
Depois abro os braços!
Depois liberto-me...!
Ai se eu pudesse...
Se eu pudesse nunca mais olhar para trás
Se eu pudesse seguir em frente
Correr para sempre
Ir para além de tudo
Para além de todos
Para além de toda a matéria
Se eu pudesse apenas ir-me...!
...
Os meus cabelos...
Os meus cabelos chamam-me à realidade...
canso-me
atiro-me de novo para o chão
agora já não quero ver o céu
agora já não me delicio nas nuvens, nem nos pássaros
agora simplesmente me atiro
sou como a concha
sou como a pedra
que rola e rebola
vem e vai com as ondas...
agora sou novamente eu...
agora sou eu que tenho de ser eu...


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O anjo do algodão doce...

Sou a menina,
a menina criança,
alegre e feliz,
de mão dada com o pai.
Boina vermelha,
cachecol branco,
casaco azul marinho,
sapatos de fivelas brilhantes.

Caminhamos num mercado,
caminhamos ao ar livre,
impera a frescura invernosa,
fere-nos o som de carrocéis,
insufla-nos o cheiro miscelâneo de farturas, pão com chouriço e...
algodão doce...

Solto-me da mão do meu pai
e corro para ele...
Sento-me sobre ele...
acariciada pela sua leveza...
consumida pelo seu perfume e sabor...
irrigada pelo seu liquido pegajoso...
flamejada com o seu toque sedoso...
adormeço...

Envolta nesse manto
sedoso,
perfurmado,
suave e quente...
Que me toca,
que me conforta,
que me protege...
Descanso...
Sou o anjo do algodão doce...

Sou o anjo do céu
sou o anjo de todas as horas
sou o anjo das causas,
o anjo dos amores-perfeitos
e na minha inocência,
sou o anjo branco...
puro,
transparente,
cristal,
o anjo da entrega...

Sou o anjo que te ampara...
te sopra...
te aquece...
te embala...
Sou o anjo
que está onde os teus olhos veêm
que soa onde os teus ouvidos ouvem ´
que toca onde o teu abraço enleia
que transpira onde as tuas narinas inspiram
o teu anjo do algodão doce...